Ago 17th, 2008
Os contrastes de São Paulo
Nesta semana recebi dois colegas de trabalho, um espanhol e outro italiano, e combinamos de conhecer um pouco da cidade no pouco tempo livre que teríamos. Como fugir do lugar comum deste tipo de passeios, do circuito-gringo “avenida-paulista-churrascaria-ibirapuera-feijoada”?
Em uma reunião de trabalho tiramos fotos com celular do alto de um edifício. A vista é linda, mas reforça a imagem de que a cidade é uma selva de pedra.


Sexta-feira, 14:00, fim das reuniões. Ligamos para a Dona Edilene, a simpática esposa do Estevão Silva da Conceição e agendamos a visita. Estevão é um artista talentoso, pouco conhecido da maioria dos paulistanos. Ele mora na favela do Paraisópolis, nome que causa arrepios a muita gente que não faz nem idéia de onde ela fica.
Tomamos a Av. Giovanni Gronchi e entramos pela R. Dr. Flavio de Carvalho, até o posto de gasolina. Passam por nós um BMW e uma Pajero Full. Encostamos no posto para pedir informações: é aqui mesmo. Subimos pela R. Jeremy Bentham (ou “Jeremias Bento”, segundo o frentista), pela contramão… Os estrangeiros se decepcionam com a favela. Tudo muito limpo, asfalto novinho, ônibus passando. Logo eles se encantam com as crianças brincando na rua. Subimos umas três ruas e viramos à esquerda na R. Herbert Spencer, 38
Dona Edilene nos recebe e explica que Estevão não está. Estevão se dedica diariamente até as 11:00 a cuidar da casa, expandindo, modificando e limpando. Das 11:00 às 23:00 ele volta à sua profissão de jardineiro em um condomínio na cidade. Com os donativos recebidos dos visitantes, Estevão pode comprar a
infinidade de objetos, cimento e ferro que usa para a sua obra em eterno movimento.
Quem teve o prazer de visitar Barcelona não se contém e pergunta se ele já conhecia Antoni Gaudi (veja a fachada da Casa Batlló e confira a surpreendente semelhança de estilo). Há 23 anos, quando iniciou o que seriam os suportes para os seus vasos no jardim, era taxado de louco, e não tinha a minima idéia de quem fora o arquiteto espanhol. Hoje já teve a oportunidade de gravar um documentário em Barcelona e de conhecer as obras do catalão. Falta o reconhecimento dos paulistanos, já que a maioria dos visitantes é estrangeiro.
Saindo da casa de Estevão fomos dar uma volta pela favela, subindo pela R. Iratinga e virando na R. Melchior Giola. Basta desarmar-se dos preconceitos e agir com naturalidade, e logo você está interagindo com todos. As crianças adoram tirar fotos e algumas nos cercam, outras espreitam desconfiadas. Paramos para ver uma pelada de futebol em um organizado campinho, que tem até arquibancada e gradil. Em uma lan house improvisada um grupinho joga Playstation 3. Um grupo de bêbados pede para que lhes tiremos fotos e nos leva para conhecer outro patrimônio da favela, o Berbela.
Berbela, ou Edinaldo da Silva, é serralheiro no horário comercial. Quando termina o expediente, ali mesmo, ele começa a mexer nas suas esculturas. Mas ele é conhecido mesmo pelas suas motos e bicicletas. Quando eu cheguei, Berbela estava instalando uma bateria de carro em uma das suas criações, então lhe perguntei se era uma moto. “Não, é uma bicicleta”. Então, qual é o motivo para a bateria? “Para o DVD”. Confira no vídeo o motivo do meu queixo caído.
Sábado, 7:00. Vamos provar que São Paulo não é só pedra. Combinamos com o guia da Silcol uma trilha na APA Capivari-Monos. A APA (área de proteção ambiental) abriga duas colônias indígenas, uma colônia alemã, uma colônia japonesa, cachoeiras, rios e muita mata. Pegamos a Av. Interlagos até o autódromo, e então seguimos até a Av. Teotônio Vilela, 8000, onde fica o Posto de Atendimento ao Turista. Dali até a trilha propriamente dita vai mais uma hora de carro e ainda estamos dentro da cidade de São Paulo.
Há várias opções de trilha, desde as mais fáceis como a da Cachoeira do Sagüi até uma sofisticada descida pela mata até Itanhaém, onde uma van o estará esperando no litoral após mais de 8 horas de caminhada. Na Cachoeira do Sagüi é possível ver o Rio Capivari, o último rio limpo da cidade de São Paulo, além da exuberância da mata atlântica. Na volta tivemos a sorte de ver uma reovada de tucanos, que pousaram a poucos metros de nós em um pé de açaí.
Conheça mais São Paulo e se apaixone!
Para agendar:
- Estevão Silva da Conceição (Casa de Pedra) - 3773-7135
- Edinaldo da Silva (Berbela) - 3746-6273
- Silcol (eco-pousada e trilhas na APA Capivari-Monos) - 5971-1207
Tags: paraisópolisapa capivari-monos são paulo
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