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Aplicativos para a base da pirâmide
Esta semana estive lendo (com atraso) uma notícia da BBC sobre o convênio do Google com a Fundação Grameen para oferecer serviço de dicas na África.
O serviço Google SMS já está disponível há algum tempo para Estados Unidos, Canadá, Japão, Índia e China. Entre no link e teste a aplicação, simulando o envio de SMS. Não sei o que aconteceu, mas no dia em que li o artigo (10/07), o Google Mobile Blog fazia referência a uma página de Uganda com um vídeo com exemplos, mas esta página agora simplesmente redireciona para a página internacional.
Aparentemente a idéia é usar uma tecnologia existente e adaptá-la para a necessidade de países com populações carentes. Em lugar de oferecer uma busca por resultados esportivos e hotéis, que tal oferecer dicas de saúde e um sistema simples de trocas? A idéia parece boa, e com tantas carências, qualquer tentativa de melhorar a vida dos menos favorecidos é bem vinda.
No entanto tenho que dizer que sou um pouco cético quanto a tomar a solução como genérica sem considerar as particularidades de cada país. Dou alguns exemplos que me vem à mente:
- Analfabetismo e analfabetismo funcional. No próprio post do Google Mobile Blog eles citam como um dos principais desafios entender o que o usuário quer dizer e qual é o contexto da sua pergunta. O exemplo: se um usuário envia uma pergunta “hiv”, o que ele quiz dizer? Ele quer saber sobre os sintomas da AIDS, sobre tratamentos, quer socorro, precisa de remédios? Em um post anterior, eu me referia à dificuldade que nós brasileiros em elaborar boas perguntas para os mecanismos de busca. Generalizando, posso imaginar que o problema seja semelhante em outras localidades com carências educacionais.
- As caras da pobreza são muitas. Quando lemos artigos do primeiro mundo falando sobre a Base da Pirâmide, normalmente eles se referem ao “terceiro mundo” como uma massa homogênea, geralmente tendo como referência as misérias africana ou indiana, onde as pessoas tem um celular de US$ 10 e vivem em um meio predominantemente rural. Pergunto: esta é a cara das grandes metrópoles da América Latina? Recentemente, em uma conversa com um diretor de empresa em Bogotá, Colômbia, ele me contava do porteiro do seu prédio, morador de uma favela, e que mostrava feliz da vida o seu iPhone comprado em prestações a perder de vista. Nós latinos sabemos que o comportamento exibicionista é um fato, como uma forma de expressão de personalidade e autoafirmação. Quantas outras caras tem a pobreza?
- A simplificação do problema. Um dos males do terceiro mundo é a simplificação ou negação dos problemas. Será que disponibilizar uma ferramenta com dicas de saúde para populações ignorantes será vista pelas autoridades locais como uma forma de substituição das políticas públicas de saúde? Se a pessoa pode se “autoconsultar”, será que ela precisa de um médido próximo de si? Quem lhe proverá os remédios?
Não me entendam mal, acredito que é importante democratizar o acesso à informação e às tecnologias da informação. No entanto, infelizmente tenho muito receio do populismo tropical que tende a substituir a boa formação dos professores por um punhado de computadores na escola da periferia (novamente a simplificação do problema). Também acho louvável a iniciativa do Google, só questiono a real abrangência desta tecnologia nas populações reais.
Para quem quiser se aprofundar no tema, sugiro começar pelo livro “A Fortuna na Base da Pirâmide”, de C.K.Prahalad. O livro dá vários exemplos de inovação para os mais pobres (a base da pirâmide), muitas delas são apenas uma forma diferente de empacotar ou fracionar um produto. Por exemplo, ele dá o exemplo da Procter&Gamble que não conseguia vender o xampú Pantene na India, mas que depois se tornou um sucesso depois de começar a vendê-lo em saches de uso unitário.
O que gostaria de recuperar do livro são os 12 princípios da inovação para a base da pirâmide (note que muitos se aplicam a bens de consumo e não a serviços de informação):
- Focar em grandes saltos de qualidade e performance. Ou seja, não basta uma pequena redução no custo, ou um pequeno ajuste na performance. No caso específico do Google, quem pagará pelos SMS? Enquanto em vários países desenvolvidos os planos de celular oferecem SMS ilimitados inclusive em pré-pagos, na maioria dos países em desenvolvimento o serviço é pago por mensagem. No caso de Uganda uma parceria do Google com uma operadora local permitirá o envio de mensagens sem custo (o que deve beneficiar esta operadora)
- Soluções que combinem tecnologias velhas e tecnologias novas. O SMS é uma tecnologia bem estabelecida. Será que novas tecnologias, como códigos bidimensionais poderiam facilitar o acesso a iletrados? Cada vez mais os modelos de baixo custo dispõem de câmeras simples (no site de uma grande operadora, vejo a promoção por R$ 89 de um celular pré-pago com câmera).
- As operações precisam ser escaláveis e transportáveis entre países, culturas e idiomas. Faz todo sentido se pensarmos em América Latina. Apesar das semelhanças, certamente a pobreza do Brasil é diferente da pobreza no Peru.
- Produtos com uso reduzido de recursos ambientais. No caso do SMS, volta a questão de quem vai custear o serviço.
- Redesenho de produtos radical desde o início. Ou seja, não basta pegar um produto pensado para o primeiro mundo e dar um jeitinho. Este claramente não foi o caso do Google SMS.
- Construir infraestrutura de logística e fabricação correspondente ao produto. A infraestrutura do serviço do Google SMS definitivamente é escalável e pode ser entregue globalmente.
- Rengenharia dos processos de trabalho para que sejam menos intensivos no uso de recursos humanos. Imagino que não se aplique a este caso, já que a operação seria toda automática. Não seria o caso de pensar ao contrário? Como o serviço de SMS poderia ser complementado com serviços avançados de reconhecimento de voz ou mesmo de centrais tradicionais de call-center?
- Educar clientes semi-alfabetizados no uso dos produtos. Este me parece o ponto mais fraco do Google SMS. Como já citado anteriormente, será que tecnologias como códigos bidi poderiam ser combinadas para melhorar a performance?
- Os produtos devem funcionar em ambientes hostis (barulho, sujeira, condições insalubres, quedas de energia, poluição, ataques, etc.). Ponto para o Google SMS neste quesito.
- Adaptar a interface com o usuário para bases de usuários heterogêneas (idioma, cultura, nível de educação, idade). Novamente ao ponto da necessidade de alfabetização funcional mínima para desfrutar de um serviço baseado em texto. O que dizer das populações africanas de língua árabe ou de dialetos ancestrais?
- Métodos de distribuição devem ser desenhados para atender tanto mercados rurais como megalópoles densamente povoadas. A cobertura celular não é suficiente em áreas rurais remotas. Como aplacar este problema? Redes mistas (Wi-Max, mesh)?
- Foco na arquitetura mais ampla, permitindo a incorporação rápida de novas funcionalidades. O SMS se presta bem a isto. Para um exemplo, teste uma busca por mapa no site do Google SMS e você receberá um link para o mapa. Se o seu aparelho possuir recursos, você poderá ver o mapa.
Resumindo, acho fantástica a iniciativa do Google e do Grameen, mas estou certo que podemos criar novas soluções que complementem e ampliem o acesso às tecnologias da informação para as populações mais carentes.
Se você está envolvido com o tema ou tem interesse, por favor, compartilhe suas opiniões.